Hortas comunitárias: células organizativas para mulheres retomarem poder sobre seus corpos, vidas e territórios para além de lentes coloniais
Cuidar da terra, plantar e cultivar, aprendendo e fazendo uso de tecnologias e saberes ancestrais, são práticas que desafiam as perspectivas coloniais e têm o potencial de retomar o poder sobre nossos corpos, territórios e reconfigurar nossas relações com o planeta. Essa foi a mensagem trazida na vigésima quinta sessão do Teach-In, série de Educação em Economia Política da South Feminist Futures, conduzida pela ativista brasileira Helena Silvestre. Com o tema “Cultivando alianças: mulheres, hortas urbanas e poder coletivo”, a sessão, realizada no dia 23 de julho de 2025, explorou a construção de estratégias coletivas de sobrevivência e como elas conectam e amplificam várias lutas por justiça social, defendendo que as soluções encontradas através do trabalho com as hortas podem trazer lições para outras dimensões que não só a alimentar.
“As hortas são espaços ao redor dos quais se fortalecem coletivos de mulheres que debatem entre si formas de cuidado com o cultivo, trocam saberes e experiências, estabelecem regras de funcionamento comunitário, elegem intervenções possíveis, denunciam violações e, sobretudo, experimentam o exercício direto de poder sobre várias dimensões da vida. Sermos nós mesmas as pessoas estabelecendo as regras que vamos seguir faz com que experimentemos a ideia de que o poder não precisa vir de cima, podendo estar distribuído entre todos e todas, o que evidencia formas possíveis de gestão da vida comum, conflitos e recursos”, resumiu Helena Silvestre.
Helena é uma ativista engajada na auto-organização de mulheres de comunidades faveladas na periferia sul de São Paulo e educadora popular na Escola Feminista Abya Yala, formada majoritariamente por mulheres negras e afroindígenas ativas e ativistas em suas comunidades. A rede, ativa desde 2018, promove cursos e atividades culturais, além de realizar assembleias mensais para discutir as demandas do território, trocar informações sobre o que tem acontecido em cada favela e decidir quais intervenções coletivas serão realizadas no espaço.
O próprio nome da Escola já introduz a cosmovisão adotada por essas mulheres. Abya Yala é a denominação do povo Kuna, do atual Panamá, para o continente americano. Ou seja, esses espaços de articulação, formação e auto-organização baseiam-se em sabedorias ancestrais, pré-colonização, e que rejeitam enquadramentos coloniais. Foi por meio do compartilhamento dos princípios e atividades desenvolvidas pela Escola que a escritora e articuladora refletiu sobre como recursos e saberes ancestrais reconectam e potencializam alianças com todos os seres — não apenas humanos — e com o ambiente, e como a auto-organização de mulheres empobrecidas e racializadas é uma experiência poderosa e anticolonial, questionando as formas tradicionais de organização que centram a ideia patriarcal de um único líder heroico.
Além disso, como reforçou Helena Silvestre durante a sessão, a Escola Feminista Abya Yala reúne e acolhe mães de filhos assassinados pela polícia, familiares de pessoas presas e mulheres vítimas de violências, denuncia violações e fomenta práticas e experiências de auto-organização a partir da construção de hortas comunitárias urbanas. “Isso é fundamental, porque não queremos apenas denunciar as negações [de direitos], mas também afirmar o que compõe o nosso desejo de bem viver”, disse a ativista.
Hortas comunitárias: poder, autonomia, remédio e integração com o ambiente
As hortas comunitárias simbolizam e sintetizam os valores do bem viver sonhados pelas mulheres da Escola Feminista Abya Yala — são “células organizativas”, nas palavras de Helena. Alguns dos eixos fundamentais dessas práticas são o enquadramento da comida como poder, como remédio, e as hortas como uma experiência de integração multiespécie e de desafio à propriedade privada.
Como descreveu a articuladora durante a sessão, as hortas permitem o acesso a alimentos saudáveis e sem veneno — que no Brasil têm se tornado um privilégio —, mas também são uma ferramenta de reconexão com a terra. É nessa perspectiva que o acesso à comida saudável seria uma retomada de poder, especialmente em uma sociedade alicerçada na separação dos povos com a terra — e que hoje só permite o acesso a meios de subsistência através do trabalho assalariado. “Pensar a soberania alimentar é também pensar nossa soberania como comunidades, é recuperar uma porção do poder que nos roubaram no processo colonial de concentração de terras. É um enfrentamento realizado cotidianamente e que desafia a ideia de que o poder vem de cima e a gestão de nossas vidas só pode ser pensada por especialistas renomados. A articulação através das hortas tem permitido acessar os alimentos e também o poder que eles representam: sobre nossos corpos, reprodução das vidas, sobre a concepção de como podemos e devemos gerir comunitariamente a vida coletiva”, defende a ativista paulistana.
Além disso, a comida é e sempre foi remédio — e a reapropriação desses saberes é fundamental. Saberes estes que sobreviveram às violências da colonização e expropriação da terra, especialmente através das mulheres. “Em que pese toda a brutalidade da colonização, esse não é um processo sem resistência de diversos povos para preservar suas memórias e sabedorias”, disse a articuladora durante a sessão. Os efeitos curativos da alimentação e de ervas medicinais, assim como melhores formas de manejo da terra, são conhecimentos que estão presentes e que, com estímulo, voltam a circular e a ser fomentados e partilhados. “Mesmo sem terra, as mulheres faveladas seguem cultivando em calçadas, terrenos baldios, em baldes que seja. É a certeza de que comida também é uma forma de manter a saúde de si e de sua comunidade”, completa Helena.
Nessa mesma lógica, as hortas urbanas apresentam-se também como experiência de integração interespécie. Isto é, de cuidado com outras formas de vida, como as vegetais e outros animais, também fundamentais para os espaços. “Isso é um tema importante porque os conhecimentos ancestrais nos contam que nem sempre os humanos acharam que eram superiores ao conjunto dos outros animais. Essa perspectiva permite que não reproduzamos o mesmo processo que foi feito conosco, de inferiorizar e hierarquizar vidas”.
Por fim, fomentar hortas comunitárias é também, para a Escola Feminista Abya Yala, desafiar a propriedade privada, um dos pilares do mundo capitalista. Sua lógica propõe uma auto-organização e autogestão que independem de enquadramentos pré-estabelecidos pelo capital, centralizando o cuidado e a autogestão coletivas. Trata-se de ocupar terras para uso comunitário, e não para especulação imobiliária ou para benefícios individuais. Como resumiu Helena: “Quando as condições mais básicas estão sob ameaça, as mulheres são a maioria dos grupos que se associam para lutar e ocupar terras, sejam elas urbanas ou rurais, desafiando a ideia de que terras têm dono. Quando mulheres reivindicam o direito de acessar uma terra, estão questionando a própria ideia da propriedade privada. São a força motora das lutas, apesar da imensa criminalização e represália”.
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Summary by: Nana Soares