Negociações, criatividade, agência: estudando sexualidade em Moçambique além do olhar ocidental

Embora possa ser vivida como um espaço de restrição, a sexualidade no continente africano — mais especialmente em Moçambique — é também um lócus de agência e criatividade, com constantes reconstruções de normas sociais. Essa foi a mensagem-chave da vigésima oitava sessão do Teach-In, série de Educação em Economia Política da South Feminist Futures, conduzida pela antropóloga moçambicana Sandra Manuel. Com o tema “Transgressões cotidianas: gênero, desejo e a construção dos mundos sexuais em Maputo”, a sessão, realizada no dia 30 de outubro de 2025, revisitou as descobertas de suas décadas de trabalho etnográfico em Maputo, período em que a pesquisadora explorou como as pessoas vivenciam a sexualidade desde o cotidiano e a intimidade.

Sandra é antropóloga, professora assistente na Universidade Eduardo Mondlane (UEM), pesquisadora no Kaleidoscopio – Políticas Públicas e Cultura e coeditora da Feminist Africa. Seu trabalho e suas incursões etnográficas, guiados pelo questionamento de como as práticas sexuais e relações de gênero perturbam as lógicas disciplinares que historicamente enquadram a sexualidade na África de forma negativa, mostram como as camadas médias e de elite de Maputo e Moçambique vivenciam a sexualidade de forma distinta do que historicamente indicava a produção do Norte Global — focada na sexualidade como lócus de doenças, como o HIV, sofrimento, por violências, casamentos ou gestações indesejadas, e intervenções biomédicas que desconsideram relações interpessoais.

“Maputo é sim parte de um país que tem problemas e limitações, mas existe um outro aspecto cosmopolita e vivo que trago em minhas pesquisas”, diz Sandra Manuel. Com mais de vinte anos de campo, ela reforça a importância de se observar o dia a dia e as interações cotidianas, que mostram brechas e negociações com a cultura vigente. “É uma maneira de desmistificar questões fixas sobre sexualidades, pois diferentes nuances emergem. A pesquisa mostra, por exemplo, que distintas dinâmicas de vida — classe, gênero, parentalidade, etc. — mudam a forma como as pessoas se adaptam às realidades. Por isso, considero o cotidiano como uma teoria de liberdade”, diz.

Jovens moçambicanos e uso do preservativo: primeiras pistas

Sandra Manuel iniciou seus estudos etnográficos em gênero, sexualidade e intimidade nos anos 2000, focada em adolescentes de classes médias de Maputo. À época, influenciada pelo impacto da epidemia de HIV/Aids, buscava entender por que os jovens resistiam a usar preservativo nas relações sexuais. “Muitas vezes as políticas públicas olham apenas a partir da saúde, não das relações humanas e sociais. Esquece-se de que as pessoas, quando pensam no bem-estar, levam em conta vários fatores — por exemplo, a honra e outros valores”.

Foi exatamente o que a etnografia mostrou: havia uma diferenciação importante entre relações casuais — onde em geral se usava preservativo — e relações sexuais que aconteciam dentro de um namoro, em geral desprotegidas. Nesse último caso, especialmente para as meninas, não usar preservativo era uma forma de honrar a seriedade e o compromisso intrínsecos àquela relação. “Percebi que naquela faixa etária o namoro era entendido como um prenúncio de um relacionamento mais sério, e que ser pedida em namoro era considerado algo de valor — até porque não era preciso estar em um relacionamento para ter relações sexuais. Portanto, o uso do preservativo tinha a ver com o tipo de relacionamento. E isso demonstra a existência, nesse tipo de escolha, de uma salvaguarda de questões relacionadas à honra através do sexo”, resume Sandra.

O estudo também mostrou dinâmicas da negociação sexual entre os jovens. Para as meninas, era importante que o interesse não fosse manifestado verbalmente, pois uma aceitação explícita poderia ser mal vista. Dizer “sim” poderia implicar que fossem entendidas como mulheres com menor valor social, menos sérias ou elegíveis a relacionamentos duradouros. Portanto, o interesse era manifestado de outras formas, criando signos próprios para perceber o interesse sexual.

Sexualidade nas elites de Maputo: normalização do apetite sexual e políticas do respeito

Já o campo com adultos de classes médias urbanas de Maputo mostrou a normalização do desejo sexual. Essa etnografia, iniciada nos anos 2010, evidenciou o enquadramento positivo do sexo e da sexualidade nesse corte etário, incluindo a subversão de heteronormatividades.

“O sexo é percebido como uma coreografia entre corpos, um prazer conjunto. É naturalizado, entendido como parte intrínseca a ser um adulto saudável, e é descrito com metáforas alimentares”, resume Sandra Manuel, ressalvando, porém, que isso é um entendimento mais fortemente ligado aos homens do que às mulheres.

Para as classes médias de Maputo, o objetivo da prática sexual é prover satisfação e é relacional, ou seja, acontece entre duas ou mais pessoas. De seu aspecto relacional decorrem algumas implicações, como a obrigação de fazê-lo, especialmente dentro de um casamento. Ao mesmo tempo, o sexo é entendido como um ofício, uma prática que tem técnica e saber específico — e, por isso, há uma expectativa de experiências e prazeres diferentes com cada pessoa ou ato sexual distinto.

“Isso coloca um desafio: não é possível ter algo novo se há apenas um parceiro sexual, e isso é reconhecido, embora não necessariamente verbalizado”, explicou a antropóloga. Há, como explicou Sandra, uma certa aceitação de que uma pessoa pode ter mais de um parceiro para poder viver diferentes experiências sexuais. Mas essas experiências extraconjugais precisam ser gerenciadas, uma vez que a norma é uma relação monogâmica.

Aí entram o que Sandra Manuel chamou de “políticas de respeito”, que são as estratégias para gerenciar essa contradição entre o apetite sexual normalizado e as expectativas da monogamia. “As pessoas encontram mecanismos para viver sua sexualidade tendo em conta a contradição de valores na sociedade. O que acontece na prática é uma ênfase no processo de ocultar, das pessoas serem discretas em relação ao sexo extraconjugal, que é uma prática comum, mas regrada”, ressalta a antropóloga moçambicana. “São métodos que emergem para garantir estabilidade e que, ao responder a momentos de crise, acabam consolidando a normalização do apetite sexual”.

Tensionamentos e limitações sobre papéis e identidades de gênero

Por fim, as décadas de pesquisa de campo em Maputo trazem um outro ponto importante: as vivências e tensões em relação a papéis de gênero. As principais observadas por Sandra Manuel são a subversão de normas heteronormativas, a relevância da classe social e a contradição radical — que pode levar à violência — entre expectativas para homens e mulheres.

Em relação à subversão da heteronormatividade, a pesquisadora observa que muitas pessoas — autoidentificadas heterossexuais — ouvidas na pesquisa expressaram práticas sexuais além da heteronormatividade, especialmente a penetração anal em homens. “No imaginário heterossexualizado de Maputo, essa é uma prática associada à homossexualidade, identidade que causa repugnação nos homens. Mas, na intimidade, vários desses homens expressaram sentir prazer em serem penetrados e expressaram que há critérios para quem pode fazer isso, ‘guardando-se’ para a esposa”. Comportamento que reforça e desloca a reificação da virgindade: “há uma parte do corpo dos homens que espera ser desvirginada por mulheres, e não pode ser qualquer uma”, aponta Sandra.

Quanto à relevância da classe, a pesquisadora da Universidade Eduardo Mondlane ressaltou que existem outros fatores além do gênero que podem determinar as hierarquias e posições dentro de uma relação, como a idade e o parentesco. Nesse grupo mais abastado, há maior tolerância para relações extraconjugais de mulheres e para o desejo feminino, e isso leva a uma dualidade, ou a uma contradição radical em relação a suas compreensões dos papéis de gênero. “Há uma contradição, decorrente da socialização, das expectativas. Estes homens e mulheres da mesma geração foram educados nas mesmas famílias, mas com valores distintos: os homens para continuar nos papéis mais tradicionais e serem provedores, esperando uma mulher mais submissa, mas as mulheres criadas para serem independentes e esperando maior horizontalidade nas relações. Quando os dois se encontram, há um choque de expectativas que pode gerar crises ou até levar à violência”, explica Sandra Manuel, acrescentando que aqui também o respeito performativo é uma estratégia para estabilizar essa contradição. E que as mudanças seguem em curso — por exemplo, há a influência de valores ocidentais. Entender até que ponto e como se dá essa influência exigirá novos estudos — sempre feitos desde África e não apenas sobre África.


Summary by: Nana Soares